24 outubro, 2020

Ela, a informação

Catende, a cara província. Era mais um dia de domingo e lá ia eu andando, por volta das seis da manhã, em demanda da missa matinal. Era uma missa mais tranquila, menos barulhenta, mais introspectiva do que aquelas do horário do fim da tarde. Havia alguma ligação entre a paz da manhã e a tranquilidade da liturgia. Ao lado, no jardim do templo, era até possível ouvir aqui e ali o silvo adocicado de um pássaro.  
Minha mãe estava sempre lá, no coral de Santa Ana. De quando em vez subia ao altar e lia a epístola. 
Eu acompanhava tudo de longe. Nada na algibeira, nem mesmo um terço eu carregava. Ao fim da missa, nós descíamos a ladeira e ao dobrar a rua à direita chegávamos em casa. Era ainda cedo e a cidade dormia. 

No terraço da casa, jogado ao canto, envolto em uma bolsa plástica, jazia o Diário de Pernambuco. Calmo, taciturno e antigo. Parecia não representar perigo algum. Estava no canto dele e só era perturbado se nós o provocássemos. 

14 outubro, 2020

O Largo da Sé: da capela colonial à catedral eclética

                             
                                                                                   

Igreja da Sé e seu estilo eclético
                  O primeiro sítio da igreja matriz de S. Paulo situava-se mais abaixo que o atual, onde hoje fica o monumento a Anchieta. A primeira matriz começou a ser erguida em 1589, tendo sido concluída em 1616. Era uma modesta capela em estilo colonial.

                 Com a criação da diocese em 1745, o primeiro templo foi demolido e substituído por um novo em estilo barroco, terminado em 1769. Seria demolido em 1911. A seu lado ficava a igreja de S. Pedro, também demolida, no lugar onde hoje está o prédio da Caixa Econômica Federal.

                  O templo atual começou a ser erguido em 1913, tendo sido inaugurado em 1954, por ocasião do quarto centenário da cidade. Todavia, as torres somente foram finalizadas em 1969. O projeto, de caráter eclético, é do arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl, também responsável pela igreja da Consolação e pela catedral de Santos.

08 setembro, 2020

MÁSCARAS

 Por Paulo Eduardo Razuk

 

                                                                


Máscara é a peça com que se cobre parcial ou totalmente o rosto para ocultar a própria identidade. No teatro é a peça com que os atores cobrem o rosto para caracterizar o personagem que representam. Duas máscaras são os símbolos da tragédia e da comédia do antigo teatro grego. Na área médica, é a peça utilizada por profissionais, para cobrir a boca e o nariz em salas de cirurgia (1).

            
 Na antiguidade, o uso das máscaras se dava nas festas que celebravam Dionísio, deus do vinho. De artefato ritualístico, as máscaras passaram  a representar personagens de ambos os sexos no teatro grego, tanto na comédia quanto na tragédia. Como as mulheres não eram consideradas cidadãs, os personagens masculinos ou femininos eram sempre representados por homens (2).

No século XVIII, no carnaval de Veneza, festa profana, as máscaras e fantasias eram utilizadas pela nobreza como disfarce para misturar-se ao povo, de modo anônimo (3).

No cinema, máscaras eram usadas por malfeitores, para encobrir as suas identidades, em diversos gêneros, como western ou policial.  Atualmente, na vida real, os bandidos comuns assaltam as suas vítimas de cara limpa,  já não se preocupando em ocultar as suas identidades.

Nas manifestações de rua, entre os participantes, têm se infiltrado os black blocks, mascarados vestidos de preto, para promover depredações do patrimônio público ou privado, em ações de caráter anarquista, escondendo as suas identidades.

No entanto, a pior máscara é a invisível, que mostra um semblante que não corresponde ao verdadeiro caráter da pessoa. É a utilizada pelos fariseus, para afetar  uma virtude que não possuem. É a impostura, o fingimento e a falsa devoção. Exemplo perfeito de fariseu moral é o Conselheiro Acácio, personagem de O Primo Basílio de Eça de Queiroz. O mais horrível é aquele que traz no coração o ideal de Sodoma e presta devoção à Madona (4).

                                                          

23 agosto, 2020

A Casa Real de Espanha

 

  

                                                                                                     Paulo Eduardo Razuk

  

                                                                     O domínio da Casa de Habsburgo  na Espanha iniciou-se com Carlos I, que era neto do Imperador Maximiliano da Alemanha e dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de  Castela. Ao abdicar do trono, em 1556, deixou a Espanha para seu filho Felipe II e a Áustria para seu irmão Fernando, vindo a falecer em um convento em 1558.

                                                                     A Casa de Habsburgo, que os espanhóis chamam de os Áustrias, reinou na Espanha até 1700, ano em que morreu  Carlos II, que não deixou herdeiros. A sucessão da coroa espanhola causou uma guerra européia. De um lado, o arquiduque Carlos de Áustria; de outro, o príncipe Felipe de Anjou, neto de Luís XIV, rei de França. Com a paz de Utrecht, em 1713, Felipe de Anjou foi reconhecido como rei de Espanha, assumindo o nome de Felipe V, a inaugurar o domínio da Casa de Bourbon, que, com interrupções, perdura até hoje na Espanha.

                                                                    Desde 1713, vigia na Espanha a lei sálica, que não admite a sucessão da coroa pela linha feminina. Em 1800, sem obedecer ao devido processo legislativo para tanto, Fernando VII alterou unilateralmente a lei, o que não foi acatado pelos tradicionalistas. Faleceu em 1833, deixando apenas uma filha menor, que assumiu o trono como Isabel II,  não reconhecida como rainha pelos legitimistas, que apoiavam Carlos, irmão do rei. Houve três guerras carlistas pela sucessão da coroa espanhola, em 1833/1840, 1846/1849 e 1872/1876.